A escolha do CEO, uma das mais dificeis decisões do board

Eric Schmidt não será mais o CEO do Google. Vejam a matéria sobre isso em http://blogs.estadao.com.br/link/eric-schmidt-nao-sera-mais-o-ceo-do-google. No lugar dele assumirá o cofundador da empresa, Larry Page.

Engraçado isso, não é mesmo? Ele já fez tanta coisa pelo Google e agora, de repente, sai assim, sem mais nem menos. Por que será?

Sem dúvida esta mudança tem a ver com o crescimento do Facebook, que está começando a dominar a web, luta esta em que o Google não está conseguindo fazer frente. Para liderar um Google mais agressivo, mais competitivo, que novamente vislumbre o que será a web amanhã, ninguém melhor do que o próprio fundador, o criador do conceito, a pessoa que construiu a empresa do nada, aquele que deu a alma à empresa, que encantou os investidores no início, que encantou pessoas para trabalharem ao lado dele por este sonho, que vislumbrou um futuro diferente quando ninguém era capaz de ver nada, algo que fica um tanto difícil de fazer com um executivo que não participou de nada disso à frente dos negócios, mas que chegou só quando tudo já estava criado.

E também, lógico, porque falamos de uma indústria que tem como motores a inovação, a criatividade, a novidade, o novo, o futuro. E não estamos falando de uma indústria ou de um mercado já constituído, consagrado e estável. Pelo contrário, a única coisa que não muda é o fato de estar sempre mudando.

Mas já vimos esse filme algumas vezes. O caso mais marcante é o da Apple. Lembram-se quando o board da Apple tirou o Steve Jobs para colocar um CEO “profissional”? Lembram o que houve com a Apple? Praticamente morreu. Até que Steve Jobs foi chamado novamente, e aí todos sabemos o que houve com a Apple quando ele voltou, e fez a Apple não só voltar a ser o que era antes, mas muito melhor, sendo hoje uma empresa muito mais valiosa do que a Microsoft e o próprio Google.

No entanto, empresas como a Microsoft, por exemplo, que mantiveram na liderança seu fundador, Bill Gates, ou mesmo agora o Facebook, que mantém na liderança seu fundador, Mark Zuckerberg, são sempre extremamente competitivas. No entanto, quando o fundador e líder é preterido antes de a empresa estar muito bem estabilizada e com seus conceitos muito bem definidos – e eu mesmo já vi isso acontecer em outros lugares bem mais próximos – em geral as coisas mudam radicalmente e a empresa não só perde toda a identidade, como definha e caminha para a morte.

No entanto, é fácil compreender o motivo disso. O fundador tem uma relação de paixão com a empresa muito, muito maior do que a preocupação com o bônus do final do ano. O fundador é capaz de se sacrificar pela empresa se necessário e consegue continuar motivado, inspirado e dando tudo de si, pois a empresa se tornou como um filho para ele, e o que um pai mais quer é ver o filho brilhar e ser famoso. Um pai fará tudo por um filho, pois é na glória do filho que reside a felicidade e o orgulho do pai.

Lógico que há pais e pais. Não é todo mundo que tem uma ideia, que vislumbra algo e funda uma empresa  e que depois tem competência para continuar no comando da mesma. No entanto, é fato que muitos têm e, nesta hora, vocês não verão um CEO tradicional como os “profissionais” de mercado, mas verão alguém bem diferente, talvez que use chinelo como o Zuckerberg ou que seja extremamente arrogante como o Steve Jobs. O brilhantismo deles não reside no fato de serem como são, mas no fato de conseguirem criar, pensar fora da caixa, achar soluções em lugares onde nenhum outro conseguiria achar, pois não pensam de acordo com o que foram orientados na escola. Seguem seus instintos, seu coração, confiam em si mesmos e, por isso, pensam diferente da maioria sem se preocupar com o estereótipo padrão de um CEO “profissional”.

No entanto, é lógico que um CEO “profissional” de mercado trará coisas boas para a empresa e conseguirá contribuir com coisas que o fundador não conseguirá fornecer, até mesmo porque este não é o papel dele. Mas isso tem prazo para terminar, pois o CEO “profissional” traz consigo apenas o que aprendeu por aí, na escola ou em outras empresas. E quando acabar de implantar suas novidades, não saberá o que fazer, porque não é criativo, não sabe pensar diferente, fora da caixa, já que é acostumado e aprendeu a pensar sempre dentro da caixa. Seu arcabouço de conhecimentos é finito, e além deste arcabouço nada mais existe. Em geral não tem coragem de arriscar e tudo o que faz é encomendar pesquisas e agir protegido, coberto por elas, para que, caso algo dê errado, tenha como se defender.

Não posso generalizar, mas posso dizer, sim, que este é o perfil da grande maioria.

Já o “louco” do fundador da empresa em geral pensa fora da caixa e em geral acha a resposta dentro dele mesmo. Ele não fez a empresa com o que aprendeu de professores, e a empresa que ele criou não existe como fruto do que aprendeu na escola. O que ele fez nasceu dentro dele quando ninguém via ou sequer tinha ouvido falar disso. Desta mesma fonte, é provável que nasçam muitas outras ideias, projetos, negócios, além de muitas outras saídas, soluções e novidades, desde que este [FB1] seja estimulado corretamente.

Está aí o Steve Jobs que não me deixa mentir. Afinal, a Apple não se reergueu vendendo computadores, mas vendendo iPods, iPhones, iPads e agora até mesmo computadores novamente. Será que um CEO “profissional” conseguiria fazer iPods, iPhones e iPads? Lógico que não! Somente da mente criativa do fundador é que muitas vezes sai a resposta, a solução para um momento de crise.

Sem dúvida, para quem investe é sempre uma decisão difícil deixar o “louco” do fundador no comando e continuar com a alma da empresa, com o motor principal da empresa, e correr riscos. Assim como também é solução difícil trocar o líder e colocar um CEO “profissional” de mercado, perdendo totalmente o espírito da empresa, mas “diminuindo riscos” e obtendo relatórios mais bonitinhos, maior previsibilidade, apresentações mais benfeitas, além de ter alguém que seja mais capaz de conversar com o board de acionistas.

Tenho percebido que, em geral, a troca do líder da empresa depende muito do perfil dos acionistas. Investidores inseguros que preferem investir em papéis mais seguros e tradicionais, que não gostam muito de adrenalina ou de arriscar, tendem a querer um CEO de mercado mais calmo e “profissional”. Já investidores mais agressivos, que gostam de arriscar mais, tendem a preferir o fundador como CEO.

Mas sem dúvida o melhor dos mundos é que o fundador se torne um CEO mais “profissional”,  que consiga conversar mais com o board e que não perca o tesão que teve na hora da fundação da empresa, na hora em que vislumbrou o futuro, assumiu riscos, atropelou tudo e todos e “não sabendo que era impossível, foi lá e fez” e construiu tudo.

Mas nem sempre isso acontece e, nessa hora, o board de acionistas, que tem nas mãos uma empresa de tecnologia de ponta, terá sempre uma grande dúvida: manter o louco do fundador na liderança, aquele com quem muitas vez sequer se consegue conversar direito, de quem se discorda na grande maioria das vezes, mas deixamos a empresa com o mesmo pique, com o mesmo “driverr” com grande motor de inspiração e competitividade do início? Ou colocar no lugar dele um profissional mais quadradinho, geralmente bem formado por grandes universidades, com pós, mestrado e doutorado, mas que não foi capaz de fazer nada diferente, não vislumbrou nada, ou se vislumbrou, não teve coragem de implementar e até mesmo por isso está disponível no mercado para ser um CEO?

Qual dos dois?

É, dúvida cruel!

Boa sorte!

1 pensou em “A escolha do CEO, uma das mais dificeis decisões do board

  1. Marcio Abrileri

    Este post vai gerar muita polêmica.

    Tenho certeza que o perfil de cada leitor determinará se gostou muito ou não concorda com praticamente nada, na mesma proporção e distância dos dois tipos de profissional que você citou.

    Quem tem um perfil mais empreendedor vai concordar com sua abordagem.
    Quem não tem, vai achar diversos argumentos para rebater seus pontos.

    Particularmente eu compartilho que o ideal é a união das duas caracteristicas que você mencionou.

    Enfim, é mesmo uma dúvida cruel!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

4 − dois =