A “realidade” do Second Life

Tenho lido e ouvido falar muito sobre o Second Life. Vejo que grandes e respeitadas empresas têm aderido aos encantos deste novo serviço, e profissionais de destaque, em excelentes posições, têm investido polpudos recursos e defendendo que este é o futuro e que ele veio para ficar.

Sem dúvida, eu admiro o trabalho que os profissionais do Second Life estão fazendo. A proposta é interessante, bem como todo o trabalho de tecnologia envolvido, e sem dúvida admiro principalmente o trabalho do pessoal de marketing e comunicação deles. Sem dúvida, estes estão de parabéns!

Digo isso porque, diferentemente destas grandes e respeitadas empresas e seus renomados profissionais, que vêm se envolvendo e divulgando o Second Life, com todo o respeito, não concordo com todo este barulho, com todo este encantamento que a mídia vem dando e, principalmente, com o timing do Second Life.

Acho extramente duvidoso apostar no Second Life, hoje.

Falo isso porque primeiramente não vejo a Internet como um fim, mas quase sempre, como um meio. As pessoas vão para a Internet para buscar informações, procurar empregos ou profissionais, comprar e vender coisas, encontrar conhecidos ou até mesmo conhecer novas pessoas para sair, interagir e namorar.

Em segundo lugar, quando utilizamos a Internet para interagir com outras pessoas (via e-mail, Messenger, Skype e similares), queremos fazê-lo do modo mais objetivo e prático possível, porque a finalidade neste caso é poder se expressar e receber de volta o que a outra pessoa escreve ou fala. Perceba então que, novamente, o foco está no conteúdo, e não o meio em si.

Ou seja, em praticamente qualquer caso, a Internet é quase sempre um meio, que ajuda as pessoas a viverem melhor suas vidas aqui fora, no First Life.

A meu ver, o que queremos é sentir o calor do sol, ouvir o barulhinho da chuva, os sons dos passarinhos, saborear uma boa comida, admirar uma flor ou uma bela paisagem, namorar, amar, ou seja, viver a vida como ela é, com todos os nossos sentidos, vendo, ouvindo, cheirando, tocando e experimentando, tudo do nosso velho e bom jeito de viver.

É fato que vamos, sim, utilizar cada vez mais a Internet, mas como meio, como ferramenta, para encontrar o que fazer aqui fora, no mundo real.

Há, no entanto, uma ressalva importante a se fazer, uma exceção nesta história. Infelizmente existem pessoas que não estão bem momentaneamente ou que não estão bem adaptadas à vida real.

Algumas pessoas têm problemas em se mostrar por qualquer que seja o motivo, ou porque não estão bem com sua aparência ou porque têm dificuldades em se relacionar, ou qualquer outra coisa do gênero. Estes, sim, provavelmente desejarão viver no virtual, no Second Life, onde poderão contornar suas inconformidades, criando personagens virtuais do jeito que não são na realidade.

Tirando este universo de pessoas, eu não consigo imaginar por que alguém deixaria de viver o First Life para gastar seu tempo no Second Life.

Mesmo assim, fui ver tudo de perto. Baixei o software, instalei, fiz meu login, construí meu avatar (o bonequinho do Second Life) e interagi com o sistema. Não há dúvida que a proposta é muito interessante, mas como disse, não consegui perceber que há apelo suficiente para me tirar daqui da minha vida real. Depois que tive este primeiro contato, voltei mais uma ou duas vezes, e a vontade de continuar lá foi se esvaindo. A curiosidade e o apelo de conhecer podem até existir, mas compreendo que o apelo para continuar é muito, muito fraco.

Vale dizer ainda que eu trabalho com tecnologia, acredito que tenho mente aberta e estou cercado de pessoas abertas, que vivem tecnologia no seu dia-a-dia e que em geral compram fácil todas estas novidades.

Pois mesmo estando inserido neste universo de pessoas, não conheço ninguém que está lá, no Second Life. Alguns até já interagiram e também fizeram seu avatar, mas ninguém continuou lá.

Então, não tenho como não concluir que, infelizmente, o que está acontecendo é o velho efeito “Maria vai com as outras”.

Ironizando: afinal, se a Empresa X entrou, então deve ser bom. Se o Beltrano da Empresa Y e o Ciclano da Empresa Z estão lá, ou estão falando bem do assunto, então deve ser algo bom e deve ter futuro!

:-\

Não quero dizer com tudo isso que a idéia não seja interessante, ou mesmo que não tenha lá o seu apelo. Mas a meu ver, o barulho que está sendo feito é muito, muito maior do que o Second Life é capaz de nos oferecer de fato.

No entanto, lá na frente, bem lá na frente, no futuro, que eu diria ainda estar um pouco distante, quando pudermos usar nossos sentidos reais para interagir com o mundo virtual (paladar, olfato, audição, tato e visão), como se estivéssemos no mundo real, aí sim, a meu ver, o Second Life terá todos os méritos que ele está recebendo hoje, e eu mesmo o indicaria para que bons investimentos fossem feitos nele.

Portanto, não consigo deixar de concluir que se o Second Life resistir aos dias de hoje, estarão nele praticamente aqueles que não conseguiram ter êxito aqui no mundo real e foram buscar uma via alternativa, uma válvula de escape, pois para mim, quem é bom da cabeça e saudável vai querer continuar a curtir as delícias da vida real, que estão aqui fora, no First Life.

Marcelo Abrileri, 6 de Julho de 2007 – 22:00

Second Life Enviroment

8 pensou em “A “realidade” do Second Life

  1. Sérgio

    Marcelo,

    Fico feliz de ter encontrado alguém que pensa exatamente como eu sobre o assunto Second Life. Acho isto uma bobagem sem dimensões. Ainda outro dia, vi uma entrevista do Caio Túlio, onde ele relatava o imenso sucesso de uma balada patrocinada pela Fiat, que tinha conseguido reunir 2 mil internautas! 2 mil internautas! Imagina só… quanta gente! 2 mil pessoas… é quase o triplo das pessoas que eu tenho na minha agenda telefonica!
    Parabéns pelo artigo!

  2. Stevens Beringhs

    Ma, muito bacana seu blog. Quanto ao Second é bom lembrar: a empresa worlds (www.worlds.net) desde 1994 apresenta algo como o Second. Em 1999 eu era um usuário fiel ao Word Chat 3d. David Bowie tem um universo nesta ferramenta desde esta época. Bowie mostrou suas obras de arte, e até vende coisas com seu nome no “mundo” virtual. A CÓPIA É TOTAL, ATÉ DOS AVATARES. Porque não pegou::: Marketing e timing (há 8 anos a net era muito difenrete de hoje). É bom lembrar que jogos de RPG online também já tinham principio do Second. há mais de uma década.
    Bom, mas como o Orkut o Second é uma ferramenta de relacionamento (coisa fundamental na net) e não vai desaparecer tão cedo, assim como o ORKUT (se é que desaparecerá). O negócio é aderir e manter-se alerta e consciente. Mas ficar de fora é literalmente over!
    E atenção:
    O Second se aproveita do fato de que o mercado publictário está desesperado em buscar novas mídias para seus comerciais e clientes. “Mídia online é o futuro”, proclamam nos corredores das agências e faculdades.
    A corrida está só começando!!!

    Abração e parabens pelo espaço meu velho!
    Ste

  3. Drics

    Oi Marcelo!
    Muito legal seu texto, concordo contigo que a internet deve ser usada como meio de interagir e buscar informações para tornar ainda mais divertida e prazeirosa a nossa First Life, o que é totalmente diferente do que viver literalmente “On Line”.
    Bjs

  4. Leon

    Oi Marcelo,
    Legal sua opinião sobre o second life. Concordo 100% com você e vou mais além… isso vai micar já já. é mais uma bolha prestes a estourar. Quem não está bem na vida real, procure terapia ou algo mlhor para fazer… Esse papo furado de avatar, festas virtuais é para quem não tem o que fazer… Que tal ir ao cinema, ler um livro ou ir ao teatro ??? tanta coisa legal pra fazer no mundo real ou até mesmo na internet (como meio), e as pessoas perdendo tempo com bobagens… Abraços
    Leon

  5. Casa

    Oi Marcelão…
    Então, concordo em partes com o que você argumentou… Realmente há o heavy-user de SL que, normalmente, é um cara meio Freak que prefere a vida virtual, onde tudo é possível, e deixa de lado sua First Life que, muitas vezes, não é tão boa assim.
    O problema é que isso está virando um lazer dosado para muita gente. Eu conheço pessoas muito felizes, normais, que agora tem um avatar e, aos sábados, gosta de acessar, conversar com amigos distantes, reencontrar turmas antigas, etc. Ele usam o SL como meio de interação rápida… a maioria se reencontrou ou marcou tal encontro via ORKUT…
    Nesse ponto eu sou a favor de ter alguns outdoors lembrando quem é a empresa, o que ela faz aqui fora, como ela o ajuda na sua FL. Acho realmente freak o que algumas grandes fazem… Construir réplicas de suas instalações, avatares de uniforme, etc… Mas por exemplo, a 89fm usa o SL como meio para divulgação de sua empresa, atração e retenção de clientes (ouvintes) e aproveita-se disso para fazer barulho aqui no FL. Mesmo que tudo seja uma baboseira, não podemos ignorar… Ela é a 1ª rádio brasileira a estar no Metaverso… pode até ser uma grande b…. Mas deu mídia e ajudou a lembrar que a rádio existe…
    Algo como “Não importa o porque, mas falem de mim!”.
    Xiii, isso é papo para mais de hora…. Prefiro discutir isso aqui, na nossa FL, ao vivo e a cores, tomando um belo Brahma Black! rsrs
    Um abraço!

  6. Paulo Kosthy

    É Marcelo, tenho que concordar com você.

    Entendo como Second Life – a vida real em segundo plano. Abstrair os fatos reais, ignorar o contidiano, quebrar os convenios firmados no mundo real.

    De fato, não a chances de o Second Life se tornar em first. As pessoas por mais aficciionadas por tecnologia não irão abster a vida real para ter uma vida sem tato, olfato e sentimento. Por mais que se desenvolvam novas tecnologias, por mais que queiram transformar o second em first life, as pessoas não deixaram de viver os prazeres da vida real.

    Por mais que criem carros voadores, os jipeiros não ´deixaram de lado os seus Defenders e trilhas a vencerem. Por mais que que sejamos estimulados por imagens, o contato fisico não será abstraído. Então, Second Life – continuará em segundo plano.

  7. Alessandra Jorge

    É muito bom encontrar uma pessoa que apesar de viver no meio de tecnologia, saber tudo de internet , consegue colocar as coisas no seu devido lugar , e não esquecer que o mundo virtual vai ser sempre virtual e nada mais além disso.

    Beijos …

  8. Marcio

    Parabéns pelo texto.
    Muito bom saber que não sou o único que não conseguiu entender o que Second Life tem para fazer tanto barulho.
    Pelos comentários percebo que a maioria também não entendeu.
    Minha curiosidade parou na criação do meu avatar e de algumas poucas horas sem graça, voando e tentando interagir com alguem….

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

onze − sete =