BRASIL, JUNHO DE 2013, PASSEATAS, PROTESTOS, O QUE ESTÁ ACONTECENDO, O QUE FAZER E AS POSSÍVEIS CONSEQUÊNCIAS!

Já faz um bom tempo que estou para escrever, afinal, há muito o que dizer sobre tudo isso, mas acho que faltava um empurrão. Empurrão que eu recebi hoje.

Acabei de chegar de um evento do IEA da USP que tinha como objetivo tratar do assunto das manifestações nas ruas.

http://www.iea.usp.br/noticias/iea-debate-manifestacoes-nas-ruas

Lá estavam reunidos alguns da elite intelectual da Universidade de São Paulo.

Antes de cada um falar, eram gastos alguns bons segundos falando sobre o currículo de cada um, e não eram pequenos.

Você, então, a princípio, sente-se um privilegiado por estar no meio de pessoas tão eruditas e aparentemente capazes de compreender o cenário atual.

Bem, começam a falar…

Sinceram.ente, não ouvi praticamente nada de novo e, dessa laranja, que a princípio parecia ser tão suculenta, muito pouco suco saiu, e me decepcionei.

Tirando as boas e lúcidas palavras de alguns, como Alexey Magnavita, além da participação de um senhor via Internet (pois estava no Rio de Janeiro), um uruguaio que está no Brasil há mais de 50 anos, um representante dos jovens que estão nas ruas e algumas boas palavras de um ou outro, na essência, com todo respeito, achei um encontro vazio e sonso, principalmente por ser coordenado pelos Cientistas Sociais da USP.

Sem dúvida deixo aqui meus parabéns para os realizadores do encontro. Uma atitude sábia e correta diante da situação. Mas entendo que erraram feio em não chamar jovens engajados e que vivem tudo isso.

Infelizmente muitos se demonstraram totalmente perdidos, em ideias, em conclusões e perdidos até para articular melhor sobre o tema, mas sem deixar de se autodenominar a elite intelectual das Ciências Sociais.

Não foi incomum relatarem fatos da história longínqua, traçando paralelos com este e aquele movimento, mas o fato é que a grande maioria ali estava totalmente perdida e, por mais que desejassem, não entendi que conseguiram fazer nenhum link razoável com qualquer fato histórico passado.

Mas por que estes homens de cabelos brancos, muitos tidos como intelectuais, estão tão perdidos?

Infelizmente, diferentemente de qualquer outro momento histórico da humanidade, parece que a lucidez, hoje, é inversamente proporcional ao número de cabelos brancos que uma pessoa tem na cabeça. Lógico que isso é apenas uma generalização. Há muitos de cabelos brancos bem lúcidos.

Mas infelizmente parece que quanto mais cabelos brancos na cabeça, menos uso de Internet e de mídias sociais, mais deboche destas ferramentas e menor percepção do mundo atual e como elas estão mudando e moldando nosso mundo.

Pasmem: não ouvi ninguém falar neste encontro sobre Internet e mídias sociais!

É por isso que não estão compreendendo nada. Porque o que está acontecendo não está em nenhum livro de história e não tem nenhum paralelo direto com nada que já aconteceu em algum passado longínquo, mas talvez uma análise de um passado bem recente, de apenas alguns anos atrás e do presente, ajudaria.

Hoje em dia, os ditos cientistas sociais precisariam viver dentro do Facebook, do Twitter, do YouTube, do Instagram , nos Blogs, etc. Afinal, estes são os fornos que moldam a nova sociedade.

Pensei até na hipótese de mudarem o nome da IEA – Instituto de Estudos Avançados para IEP – Instituto de Estudos do Passado.
:-p

Todos muito eruditos, sem dúvida, mas uma pena que esta “elite” do pensamento da USP esteja tão desatualizada e nitidamente longe dos meios que moldam nossa realidade (com algumas exceções).

Convido você a visitar a página e assistir ao vídeo para compreender melhor o que estou dizendo.
http://goo.gl/dkCax

Frustrações à parte e parte da minha catarse realizada, acho que já consigo agora falar um pouco sobre o tema que proponho: O QUE ESTÁ ACONTECENDO!

Bem, é relativamente simples compreender o que está acontecendo com o nosso Brasil. Mas para isso vou utilizar alguns exemplos e paralelos para ajudar a compreensão.

Todos nós conhecemos uma panela de pressão e sabemos como ela funciona. Uma panela praticamente hermeticamente fechada que, levada ao fogo, começa a aquecer os ingredientes que nela se encontram. O aquecimento expande estes ingredientes e libera gases que, não tendo por onde sair, acabam criando uma pressão interna. Com a pressão e a continuidade do aquecimento, a expansão e a liberação de gases continua e se acelera, e a pressão interna vai aumentando cada vez mais. Como esse processo é continuo e até mesmo retroalimentado, por que a panela não explode? Porque há uma válvula que permite que essa pressão escape, uma válvula que dá vasão a parte dessa pressão. Se não houvesse essa válvula, a panela com certeza explodiria, como sabemos que muitas já explodiram por defeitos nesta valiosa, fundamental e preciosa válvula de escape.

Bem, com esta ilustração em mente, vamos agora falar do Brasil.

Depois das “Diretas Já”, o Brasil sempre teve uma válvula de escape, e ela se chama PT. O PT, quando atuava como oposição, agia como porta-voz do povo. Através do PT, o povo se sentia representado. Isso sem dúvida funcionava como válvula de escape, dava vazão a muitas coisas e diminuía a “pressão interna”.  Ou seja, vemos aqui uma panela de pressão sem válvula.

Some-se a isso outro fator que precisa ser levado em consideração que é a ampla forma de tomarmos contato com a informação que temos hoje. Além da televisão abranger mais lares e de haver muito mais canais que informam, temos também o enorme poder disseminador de informação que é a Internet e os inúmeros meios digitais pelos quais as notícias chegam. Através de telefones celulares, que fazem muito mais coisas do que apenas ligar, tablets, computadores e outros dispositivos até mesmo em elevadores, hoje a informação é amplamente disseminada, e povo acaba sendo informado muito rapidamente dos fatos e acontecimentos, de uma forma como nunca aconteceu. Com tudo isso, muito menos coisas passam despercebidas atualmente. Entendo que podemos comparar isso ao fogo da nossa ilustração. A ampla forma de comunicação esquenta nossa panela de pressão.

Por fim, some-se a isso também toda a forma corrupta de atuação dos nossos governantes, todo o descaso deles com o povo, todos os desvios de dinheiro público, os escândalos do mensalão, dentre outros, o empossamento de pessoas claramente corruptas para cargos de liderança nacional, enormes quantias de dinheiro sendo gastas em estádios, enquanto que a educação, a saúde e a segurança sofrem, mencionando apenas os casos já mais conhecidos, enquanto o povo vive esmagado em transportes de baixíssima qualidade, mal atendido na saúde, via os governantes ganhando cada vez mais, aumentando seus salários e, para espanto nacional, tentando até mesmo mudar as leis de forma a não serem punidos por seus erros. Em minha ilustração, considero o poder político como os ingredientes, que por estarem podres e em estado de decomposição, liberam ainda mais gases, aumentando enormemente a pressão interna de nossa panela.

Temos então uma panela de pressão com ingredientes podres, sendo superaquecida pelos meios de comunicação e sem válvula de escape. O que será que vai acontecer?

Faço minhas as palavras de um dos lúcidos palestrantes de hoje: fico espantado com o espanto de todos quanto aos acontecimentos! Sim, pois era óbvio e notório que isso iria acontecer.

Mas e os vinte centavos, onde entram na história?

Valendo-me de outra ilustração, imagine uma bexiga parcialmente cheia. E imagine você puxando essa bexiga pela sua casa, arrastando-a pelo chão enquanto você anda. Ela bate nos móveis, nos objetos e não estoura porque está apenas parcialmente cheia.

Mas agora imagine-a cheia, muito cheia mesmo, tal qual nossa panela de pressão. Agora ande com esta bexiga muito, muito cheia pela casa, arrastando-a pelo chão e deixando-a bater na quina dos móveis e dos objetos. O que vai acontecer?

Sim, ela vai estourar!

Talvez tenha estourado porque bateu na quina da mesa, mas se não fosse a quina da mesa, seria o enfeite, seria a quina de outro móvel ou qualquer coisa que propiciasse o estouro.

Portanto, os vinte centavos foram, sim, o detonador do estado atual, mas essa “quina” só estourou a “bexiga” porque ela estava muito cheia, a ponto de explodir, tal qual a panela de pressão.

Há de se ressaltar fortemente dois fatores recentes que alteraram muito o mundo em que vivemos: a enorme capacidade de capturar os fatos com fotos e vídeos graças aos nossos supercelulares e a forma extremamente rápida de divulgação que a Internet e as mídias sociais possibilitam.

Considero isso como se várias chamas estivessem aquecendo aquela nossa panela de pressão e precipitando tudo com uma velocidade gigantesca. Sobre este ponto, há de se analisar os movimentos “de manada” que a Internet propicia.

Eu poderia mencionar vários casos dos últimos 18 anos de Internet, mas vou me focar em apenas alguns mais significativos. Vimos em 1996 a rápida ascensão da Netscape, mas já logo no ano seguinte a tomada deste mercado pela Microsoft com o Internet Explorer. Vimos depois o Yahoo despontar como líder dos buscadores, mas também, da mesma forma, perder totalmente seu posto para o recém-nascido Google. Mais recentemente, vimos o nascimento e crescimento do Orkut, mas, da mesma forma, a migração em massa para o Facebook, enquanto o Twitter e o YouTube, paralelamente, também se consolidam como instrumentos de massa.

O ponto que quero dizer é que a Internet propicia o efeito manada e também o efeito agregador.

Estamos vendo agora esses efeitos acontecerem exatamente neste momento! As lideranças do Movimento Passe Livre utilizaram estas ferramentas e conseguiram organizar seus movimentos por meio das mídias sociais.

Ao irem às ruas, conseguiram a adesão de muitos outros, já insatisfeitos com a situação, que engrossaram o caldo. Não sendo compreendidos e tendo seus direitos desrespeitados, sofrendo ataques físicos amplamente fotografados, filmados e disseminados pela Internet e pelas mídias sociais, acabaram por sensibilizar ainda mais uma população já cansada dos governantes e que, não tendo uma válvula de escape, sentia-se oprimida, esmagada.

Como uma pequena rachadura num dique, num reservatório de água, que é suficiente para abalar toda a estrutura, as primeiras tentativas de dissipar e desmoralizar a manifestação tiveram efeito contrário e serviram apenas para pressionar ainda mais um povo já oprimido. A estrutura não resistiu e uma avalanche de pessoas veio às ruas, expondo todas as mazelas dos nossos governantes e fazendo inúmeras reivindicações lícitas e corretas.

E o Brasil inteiro acordou!

Bem, mas e agora? O que fazer diante desse caos?

Nossos líderes talvez estejam procurando a liderança política deste movimento para negociar (comprar), mas eles têm que perceber que não há uma liderança política, há apenas a quina do móvel que estourou a bexiga (os vinte centavos) que foi o Movimento Passe Livre. Mas agora, a bexiga já estourou e o povo todo está nas ruas. Ou seja, eles terão que negociar sim, mas com 200 milhões de brasileiros, e não mais com um ou meia dúzia, como o Sr. Luiz Inácio Lula da Silva está acostumado a fazer.

Além disso, também devem estar procurando qual meio de comunicação devem aliciar ou chantagear, de modo a manobrar todo esse povo, como costumeiramente sempre fizeram. O fato é que agora não há uma emissora capaz de manobrar o povo, pois o grande alimentador de informação é a Internet e as mídias sociais. A Globo pode até cobrir, mas quem está formando mesmo a opinião são as mídias sociais na Internet.

Esse é um quadro totalmente novo com que, acredito, nenhum intelectual social ou político está preparado para lidar!

Mas o povo está inquieto, impaciente. Como acalmar o povo para que os governantes e as estruturas não desapareçam? Afinal, o povo descontente do jeito que está poderá, sim, destruir a estrutura toda e acabar com os governantes e com o estado.

Não podemos esquecer que precisamos deles, dos governantes e da estrutura de estado, para que as melhorias ocorram e não nos encontremos numa situação ainda pior do que a atual.

O que fazer, então?

Bem, a meu ver, o que deve ser feito agora é que nossos governantes primeiramente compreendam claramente porque tudo isso aconteceu. Eles precisam se conscientizar de que o povo não é mais desinformado e facilmente manipulado, está vendo o que eles estão fazendo e o que não estão fazendo, e não podem mais agir com a imprudência e com a falta de respeito para com o povo e o dinheiro público, como sempre fizeram.

Não se deve esquecer também que o tal “efeito manada” serve para os dois lados e, ao mesmo tempo em que por um lado ele inflama, ele tem também o poder de esfriar, mas desde que utilizado corretamente.

Portanto, nossos governantes precisam mudar definitivamente sua forma de agir e enxergar que não há mais espaço para coisas como a PEC 37 e os conchavos políticos que colocaram e mantém o Renan Calheiros no poder, por exemplo. Nossos governantes precisam acordar também e perceber que aquele mundo em que eles viveram até a semana passada ACABOU! Se eles não se conscientizarem disso RÁPIDO, e continuarem com posturas inadequadas, tudo pode realmente ruir, sem contar que eles poderão desaparecer de vez da face da Terra.

Os ingredientes PRECISAM PARAR DE EXALAR MAL ODORES!

Esta é o primeiro passo que precisa acontecer: A CONSCIENTIZAÇÃO DO NOVO MOMENTO POR PARTE DOS NOSSOS GOVERNANTES!

Se isso acontecer, entendo que o próximo passo é produzir AÇÕES QUE DEMONSTREM ISSO!

Quais?

Sabemos claramente que uma das principais reivindicações do povo é justiça e podemos compreender como justiça, por exemplo, colocar quem rouba na cadeia, certo?

Podemos entender também como justiça a aplicação correta do dinheiro público. Podemos entender também como justiça não se preocupar em ser julgado. Podemos entender também como justiça agir com transparência, dentre outras coisas.

Entendo, então, que se nossos governantes realmente tiverem se conscientizado do novo momento, o próximo passo seria agir em harmonia com o novo momento, com energia e com ações como:

– Acabar em definitivo com a tal PEC 37;

– Retirar o Renan Calheiros da Presidência do Senado (e, por que não, aproveitar e retirar também o Marco Feliciano da comissão dos Direitos Humanos);

– Colocar os mensaleiros atrás das grades.

Entendo que se apenas estas três ou quatro atitudes forem tomadas, O POVO ACALMARÁ MUITO! E o efeito-manada acontecerá igualmente, só que desta vez tirando o povo das ruas e dando aos nossos governantes UM VOTO DE CONFIANÇA!

Não há omeletes sem quebrar ovos, portanto, sabendo disso, que se quebrem logo os ovos! Aí, com a paz relativamente reconquistada, podemos continuar com nossas reinvindicações e continuando a limpar o nosso Brasil.

Mas há de ficar muito claro para nossos governantes que o Brasil nunca mais será o mesmo e que se daqui pra frente não agirem com transparência, zelo com o dinheiro público e dignidade para com a nação, tudo acontecerá novamente, só que dessa vez não terão mais nenhum voto de confiança.

Se isso acontecer, quero crer que teremos dado início a um novo Brasil e a Copa poderá até acontecer. Mas se isso não acontecer, não acho que o povo irá se acalmar e também acho que o povo desejará quebrar os ovos com as próprias mãos e aí poderá acabar quebrando toda a cozinha.

Sim, pois duvido que o povo perceba o que realmente signifique estar à beira de uma guerra civil, com a possível dizimação dos governantes, do estado e com o caos instaurado. E, pior, estamos totalmente sem liderança! Esse cenário poderá significar um momento realmente muito triste para a nação, colocando tudo a perder.

Algo parecido aconteceu na Espanha recentemente, onde um governo ultraliberal assumiu o poder após revoltas populares e jogou o país na merda, deixando a Espanha com altos índices de desemprego. Só que com uma grande diferença: não temos uma União Europeia com Alemanha e França para pagar nossas contas. Aqui o risco Brasil explodiria, juntamente com o dólar e a volta da inflação, e estaríamos em condições ainda piores do que as de hoje.

Por isso, ambos os lados precisam tomar muito cuidado!

Concluindo, o cenário é realmente muito crítico e delicado. De um lado temos um povo oprimido, gritando por dias melhores e aparentemente buscando isso a qualquer custo; do outro, temos governantes totalmente despreparados para suas posições, que só souberam promover seus próprios interesses.

Aí estão minhas opiniões sobre o que está acontecendo e o porquê de estarmos aqui, bem como também o que eu acho que pode ser feito para amenizar os ânimos e as possíveis consequências.

Mas fato é que realmente não sabemos como será o amanhã, pois ele depende totalmente de como cada um dos lados agirá.

 

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