O poder inigualável da superlatividade do palavrão

Os palavrões não nasceram por acaso. São recursos extremamente válidos e criativos para prover nosso vocabulário de expressões que traduzem com a maior fidelidade nossos mais fortes e genuínos sentimentos.

É o povo fazendo sua língua.

Como o latim vulgar, será esse “português vulgar” que vingará plenamente um dia, sem que isso signifique a vulgarização do idioma, mas apenas sua maior aproximação com a gente simples das ruas e dos escritórios, com seus sentimentos, suas emoções, seu jeito, sua índole.

Por exemplo, quando você encontra algo bom, bonito ou legal, que expressão melhor traduz sua percepção do que “do cacete“? “Do cacete” transfere ao objeto referido superioridade e reconhecimento.

– O João é do cacete (ou seja, João é um cara bom e legal).

Na mesma linha, surgiu o “do caralho” ou “du caralho“.

Podemos até dizer que “do caralho” é o superlativo de “do cacete” e confere ainda mais superioridade e reconhecimento à referida pessoa ou objeto. Um reconhecimento ímpar que nenhuma outra palavra do português é capaz de fazê-lo. O “du caralho” ou sua contração, “duca“, tem também uma variante muito utilizada, que é o “pra caralho“. Veja você mesmo alguns exemplos:

– O João é du caralho. (João é um cara muito, muito bom e muito legal)

– Aquela menina é bonita pra caralho. (Aquela menina é muito, muito bonita)

Ainda, qual expressão poderia ser utilizada para traduzir melhor a idéia de quantidade, muita quantidade, do que “Pra caralho“? “Pra caralho” tende ao infinito, é quase uma expressão matemática.

A Via-Láctea tem estrelas pra caralho.

O Sol é quente pra caralho.

O Universo é antigo pra caralho.

Eu gosto de cerveja pra caralho.

Entendeu? Percebeu a grandeza?

No mesmo gênero do “Pra caralho”, mas, no caso, expressando a mais absoluta negação, está o famoso “Nem fodendo!“, que quer dizer “Não, não e não, definitivamente não!”.

Veja a diferença do “Nem fodendo” com o nada eficaz e já sem nenhuma credibilidade “Não, absolutamente não!”. Percebe como o português tradicional não consegue substituir tal palavrão com a mesma força? O “Nem fodendo” é irretorquível e liquida definitivamente o assunto. Ele te libera, com a consciência tranqüila, para outras atividades de maior interesse em sua vida.

Aquele filho pentelho de 17 anos te atormenta pedindo o carro pra ir surfar no litoral? Não perca tempo nem paciência. Solte logo um definitivo: “Nem fodendo”. Veja:

– Marquinhos, presta atenção, filho querido, NEM FODENDO!

O impertinente se manca na hora e vai pro shopping se encontrar com a turma numa boa, e você fecha os olhos e volta a curtir o CD do Lupicínio.

Há outros palavrões igualmente clássicos, e dentre estes não podíamos deixar de falar do poder do tão conhecido “puta” e suas derivações. O “puta” tem vários significados, dependendo da maneira como é utilizado. Assim como o “du caralho”, “puta” pode significar algo muito legal e bonito:

– Meu, o João comprou uma puta casa! (João comprou uma casa muito bonita)

– Puta carro bonito este seu, hein, João! (Que carro bonito este seu, hein, João)

Outro derivado famoso do “puta” é o “filho da puta“. Este conjunto de três palavras é, sem dúvida, a forma mais eficiente de maldizer alguém. Quer maneira melhor de descrever o caráter, a índole e o comportamento de alguém do que chamá-lo de “filho da puta”?

Perceba que ao dizer “O João é um filho da puta”, você conseguiu descrever, com uma incrível capacidade de expressão, que tipo de pessoa é o João. Que outra palavra do português conseguiria fazer isso com igual capacidade?

Já não podemos negar que o “puta que pariu” é uma excelente interjeição de espanto. Quando você fica atônito ou espantado com alguma notícia ou acontecimento, o que pode ser melhor do que soltar um sonoro e bem falado “puta que pariu”? Ele é capaz de expressar toda a sua surpresa perante o assunto.

Se você ouve a notícia:

– A mulher do João está dando pro Alfredo, o melhor amigo dele!

O que você diz?

– Puta que pariu!!! (e fica de boca aberta)

Pense na sonoridade de um “puta-que-pariu!” ou seu correlato “puta-que-o-pariu!“, falados assim, cadenciadamente, sílaba por sílaba.

Diante de uma notícia inesperada, qualquer um “puta-que-o-pariu!” dito assim coloca você outra vez em seu eixo. Seus neurônios têm o devido tempo e clima para se reorganizar e sacar a atitude que lhe permitirá dar um merecido troco ou safar-se de maiores dores de cabeça.

Os derivados do “puta” são muitos, sem dúvida. O “puta que pariu” também pode significar um lugar distante. Ele pode ser usado para desejar que aquele que está te irritando pare de fazê-lo, desejando que este vá para bem longe de você.

Nestas ocasiões, ele geralmente é dito na sua forma mais completa:

– Vai para a puta que o pariu!

Ou ainda, perceba como o João mora longe:

– Aonde mora o João?

– O João mora lá na puta que o pariu!

Percebe como este palavrão é capaz de demonstrar como é longe a casa do João?

E explorando o mesmo sentido de lugar distante, o “casa do caralho” denota um lugar ainda mais longe, talvez o mais longe possível de ser expresso.

Após aquele expediente estendido, quando já não há mais nenhum ônibus ou metrô e você tem que quebrar o galho daquele colega de escritório, levando-o para a casa, lá na divisa da cidade, e no meio do trajeto você tem aquela impressão de que não vai chegar mais. O que mais poderia ser dito no dia seguinte, para seus outros colegas, do que:

– Vocês sabem aonde o João mora? O João mora na casa do caralho.

A “casa do caralho” fica ainda mais longe que a “puta que pariu”, e quando você diz isso, realmente demonstra o quão longe mora o João e consegue, na mesma frase, demonstrar também quanto tempo você levou para chegar até lá.

Somente com um “na casa do caralho” você conquista o devido reconhecimento e valor pelo trabalho efetuado na noite anterior e consegue a sensação de ter suas horas de sono devidamente ressarcidas!

Por sua vez, o “porra nenhuma” atendeu tão plenamente as situações onde nosso ego exigia não só a definição de uma negação, mas também o justo escárnio contra descarados blefes, que hoje é totalmente impossível imaginar que possamos viver sem ele em nosso meio profissional. Como comentar a bravata daquele chefe idiota senão com um:

– Ele é PhD porra nenhuma!

Ou:

– Ele redigiu aquele relatório sozinho porra nenhuma!

O “porra nenhuma” nos provê sensações de incrível bem-estar interior. É como se estivéssemos fazendo a tardia e justa denúncia pública de um canalha.

São dessa mesma gênese os clássicos “aspone”, “chepone”, “repone” e, mais recentemente, o “prepone”:

– Presidente de porra nenhuma.

E o que dizer de nosso famoso “vai tomar no cu“? E sua maravilhosa e reforçadora derivação “vai tomar no olho do seu cu!“. Você já imaginou o bem que alguém faz a si próprio e aos seus quando, passado o limite do suportável, dirige-se ao canalha de seu interlocutor e solta:

–  Chega! Vai tomar no olho do seu cu!

Pronto! Você retomou as rédeas de sua vida, sua auto-estima. Desabotoa a camisa e sai à rua, vento batendo na face, olhar firme, cabeça erguida, um delicioso sorriso de vitória e renovado amor-próprio nos lábios.

Outra expressão de grande força também é o “pau no seu cu“.

Sem dúvida é uma expressão muito forte, talvez uma das mais fortes de todas, mas quer expressão melhor para se dizer a alguém quando, após tê-la avisado repetidas vezes sobre alguma coisa e ela não ter lhe dado ouvidos ? Nada melhor do que um sonoro:

– Então pau no seu cu!

O “pau no seu cu” pode ser também substituido em algumas ocasiões pelo também famoso e um pouco mais suave “vai se fuder“. Na mesma linha do anterior, o “vai se fuder” dá a você total isenção do que aconteceu ou está por vir. Você lava suas mãos perante o assunto e tira completamente sua culpa pelo que pode ocorrer.

Você avisou, avisou, avisou, mas não lhe deram ouvidos, então “vai se fuder”.

Mas o “vai se fuder”  também pode ser usando de uma outra forma, quando falado para aqueles que o prejudicaram, feriram, magoaram ou irritaram muito.

Nestas horas, quando você está se sentindo por baixo, deprimido, pequeno, nada melhor do que um alto “vai se foder” para subir seu moral e fazer com que você se sinta novamente de igual para igual com o seu ofensor.

E seria tremendamente injusto não registrar aqui uma das expressões de maior poder de definição do português vulgar: o simplesmente “fudeu!“.

E sua derivação ainda mais exacerbada: “fudeu de vez!“.

Você conhece definição mais exata, pungente e arrasadora para uma situação que atingiu o grau máximo imaginável de ameaçadora complicação? Expressão, inclusive, que uma vez proferida insere seu autor em todo um providencial contexto interior de alerta e auto-defesa. Algo assim como quando você está dirigindo bêbado, sem documentos do carro e sem carteira de habilitação, e ouve uma sirene de polícia atrás de você mandando parar.

O que você fala?

Fudeu de vez!

Sem contar que o nível de estresse de uma pessoa é inversamente proporcional à quantidade de “foda-se!” que ela fala.

Existe algo realmente libertador é o “foda-se!“?

O “foda-se!” aumenta sua auto-estima, torna você uma pessoa melhor, reorganiza as coisas em sua mente e te liberta sem culpa e sem peso.

– Não quer sair comigo? Então foda-se!

– Vai querer decidir essa merda sozinho? Então foda-se!

Aliás, de tão bem que faz, o direito ao “foda-se!” deveria estar assegurado na Constituição Federal.

“Liberdade, igualdade, fraternidade, e foda-se!”

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